RESUMOS

A construção de memórias de Batalha Reis em discurso compartilhado

Elza Miné (USP/CNPq)

A comunicação tem por objetivo apresentar o livro recém publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra Alguns Homens de Meu Tempo e Outras Memórias de Jaime Batalha Reis, de minha autoria.

Batalha Reis (1847-1935) tinha em vista registrar recordações de seus amigos, cuja reunião viria a constituir um volume a intitular-se Alguns homens de meu tempo. Não chegou, contudo, a realizar tal projeto que, desde seus primeiros anos como cônsul em Newcastle, para onde se mudou em 1883, até os últimos de sua vida, passados na Quinta da Viscondessa, em Portugal, sempre acalentou e referiu. Alinhavei-o eu, então, em seu nome.

As partes I e II do referido volume correspondem à gestação e a uma (possível) concretização desse projeto. A seguir, vêm as "Antigas Lembranças em Cartas a Celeste" (Parte III), "Recordações Musicais" (Parte IV), "Alguns dos meus Textos de Imprensa" (Parte V), "Alguns projetos" (Parte VI), que correspondem às "Outras memórias" referidas no título do volume.

Silva Maia: o jornalista português que combateu e apoiou D. Pedro I

Isabel Lustosa (Fundação Casa Rui Barbosa)

Joaquim José da Silva Maia foi um comerciante português que se estabeleceu na Bahia em 1795. Combateu, através das páginas de seu jornal "O Semanário Cívico", a Independência proclamada por D. Pedro I. Partiu para Portugal em 1824, onde publicou "O imparcial" contra D. Miguel e os absolutistas portugueses. Voltou ao Brasil em 1829 e, a partir de 1830, passou a publicar "O imparcial" no Rio de Janeiro, dando total apoio a D. Pedro I contra a imprensa oposicionista. Nessa comunicação apresentamos sua trajetória e as razões de seus posicionamentos políticos.

O Almanaque de Lembranças: a construção de um forte nexo entre portu-gueses e brasileiros na segunda metade do século XIX

Vania Pinheiro Chaves (Universidade de Lisboa)

Esta comunicação visa demonstrar que o Almanaque de Lembranças, fundado pelo intelectual português Alexandre Magno de Castilho, se manteve fiel ao propósito expresso pelo seu criador de unir a comunidade luso-brasileira, «fortificando os vínculos de sangue que mutuamente nos prendem» (ALLB 1856: 27). Embora esta coletânea tenha passado pela mão de diversos editores e sofrido inúmeras transformações no extenso período em que circulou (1851-1932), a presença do Brasil e dos brasileiros, que se fez notar desde os primeiros anos, crescendo e mantendo-se até ao último volume, assumiu múltiplas formas, o que se pretende comprovar.

As representações sobre o Pará em Periódicos do Porto: Migração, economia e sociabilidade

Profa. Dra. Cristina Donza Cancela (Ppghist-UFPA)

(Faculdade de História/Grupo de pesquisa RUMA/UFPA)
Esta apresentação analisa a representação do Pará em dois periódicos que circulavam no distrito do Porto: Jornal de Notícias e O Comércio do Porto. Discute a forma como a imigração é retratada nas fronteiras da antinomia entre o flagelo e o sucesso; a crise dos bancos e das firmas em função da decadência da borracha, que atingia os comerciantes portugueses com negócios no Pará; os anúncios de viagens em paquetes e navios; a presença e sociabilidade portuguesa nas terras do norte brasileiro, atualizada em festas e associações; e, por fim, a trajetória biográfica de alguns membros de destaque do que se convencionou chamar a colônia portuguesa no Pará, entre eles, nomes como Fran Pacheco.

A lógica íntima das personagens: a ideia, a imagem e o nome

Prof. Dr. Carlos Reis (Universidade de Coimbra)

A conferência "A lógica íntima das personagens: a ideia, a imagem e o nome" aborda as condições de existência de personagens ficcionais da literatura portuguesa, enquanto figuras representativas de grandes temas e de grandes sentidos da nossa cultura. As referidas condições de existência implicam procedimentos de figuração e de refiguração, nalguns casos problematizados em testemunhos doutrinários dos ficcionistas envolvidos; no caso da presente conferência, recorrer-se-á sobretudo a textos de Eça de Queirós e de José Saramago. Outros elementos, designadamente de caráter iconográfico, serão aduzidos, por forma a ilustrar dinâmicas de sobrevida que incutem às personagens uma transcendência e um potencial semântico que vão além do seu tempo e do escritor que as concebeu.

Camilo e a Divindade de Jesus

Prof. Dr. Antonio Augusto Nery (UFPR)

Dentre as várias menções diretas e indiretas feitas a Jesus Cristo, ao Cristianismo e à Igreja Católica nas obras de Camilo Castelo Branco (1825-1890), Divindade de Jesus (1865) é, sem dúvidas, a principal narrativa camiliana em que tais temáticas, e outras questões correlatas a elas, são alvos de atenção por parte do escritor. De acordo com afirmações contidas em uma carta enviada ao Visconde D'Azevedo, que comumente precede o texto da obra em várias edições, Camilo propõe que sua narrativa é uma espécie de resposta a obras críticas que colocaram em dúvida a condição divina de Jesus, citando especialmente Vie de Jésus (1863), de Ernest Renan (1823-1892). Para além de apresentar as principais características de Divindade de Jesus, o objetivo deste trabalho é averiguar em que medida Camilo lida com o pensamento (anti)clerical e (anti)religioso oitocentista, fomentado pela publicação de diversas exegeses bíblicas em torno da figura de Jesus Cristo, entre as quais Vie de Jésus é um dos exemplos mais contundentes.

ALMEIDA GARRETT E O BRASIL: PONTES LITERÁRIAS

Prof. Dr. Hugo Lenes Menezes (IFPI)

O diálogo da cultura escrita do Brasil com a do exterior é acentuado. Aqui a arte da palavra é um legado do colonizador europeu. Por isto, as nossas manifestações literárias iniciais são encaradas como ressonâncias das metrópoles. Tal fato origina uma interessante terminologia (a luso-brasileira), a qual é utilizada na classificação de um grupo de obras de autores portugueses que moram na Colônia durante a tutela do império lusíada. Alguns deles, como o Padre Antônio Vieira e Tomás Antônio Gonzaga, muito se identificam com os nossos valores e são considerados pertencentes a um patrimônio comum. Embora tal diálogo diminua depois de uma maior penetração francesa no século XIX, Portugal e Brasil continuam parceiros, conforme exemplifica o caso de Almeida Garrett. Este se revela, nos Oitocentos, o primeiro lusitano a julgar a nascente produção estético-verbal brasileira como já merecedora de abordagem histórica e crítica. Antes da nossa independência de Portugal, época em que é acadêmico de Direito na Universidade de Coimbra, em seu país, o futuro autor de Viagens na minha terra (1846) e os seus pares brasileiros, entusiasmados com o pensamento liberal, rapidamente difundido em terras lusas, integram apaixonadamente as organizações secretas que se opõem ao sistema absolutista. Naquele período de intenso coleguismo, Almeida Garrett obtém relevantes informações acerca do Brasil e do seu povo, o que, aliado ao debate político vigente no tempo, entre outros textos, resulta no poema "O Brasil liberto", ode escrita na retromencionada cidade portuguesa em 1821 e, posteriormente, integrada à Lírica de João Mínimo (1829), publicação que podemos inserir no gênero denominado juvenília. Assim sendo, no presente trabalho, temos por objetivo enfocar Almeida Garrett e as suas relações com a nossa cultura letrada.

PALAVRAS-CHAVE: Almeida Garrett. Relações literárias. Portugal. Brasil.

Trânsitos literários Brasil-Portugal no jornal Folha do Norte

Profa. Dra. Izabela Leal (UFPA)

O suplemento literário do jornal Folha do Norte, fundado e dirigido pelo escritor Haroldo Maranhão, surgiu em 1946 e reuniu uma geração de jovens escritores, poetas e críticos brasileiros. Batizado de "Arte-Literatura", o suplemento permitiu a divulgação de poemas, capítulos de romances, traduções e trabalhos de crítica literária produzidos por autores locais e por colaboradores de outros estados, tendo como objetivo a difusão e circulação do que estava sendo produzido de novo na literatura brasileira e no exterior. Nesse sentido, é assinalável a presença de autores portugueses que contribuíram com o periódico, como é o caso de João Gaspar Simões, que publicou o ensaio intitulado "O valor da descoberta em literatura", ou de Paulo Quintela, que apresentou traduções de poemas de Rainer Maria Rilke.

Um congênere do Grêmio Literário Português: o Real Gabinete Português de Leitura

Gilda Santos

Separados por enorme distância geográfica, o Real Gabinete Português de Leitura, fundado no Rio de Janeiro em 1837, e o Grêmio Literário Português, oficializado em Belém em 1867, apresentam similitudes que não se limitam ao contexto oitocentista. Abordar e comentar relevantes pontos em comum é o propósito desta comunicação.

Romances ao mar: o Grêmio Literário Português do Pará e a rota transatlântica dos livros

Profa. Dra. Valéria Augusti

Em 1953, o historiador francês Lucien Frebvre, atendendo ao pedido de Henri Berr, leva a cabo o programa do tomo 49 da coleção editorial "A evolução da Humanidade". Encomendado em 1930, deveria se dedicar à História do livro. Muito embora nessa época não possuísse tempo necessário para levar o empreendimento adiante, Febvre lança um plano sobre o papel, dá-lhe um título - "L'Apparition du livre" - e confia parte de sua execução a um jovem arquivista, Henri Jean Martin. A Martin explica: não se trata de fazer uma história da impressão, nem uma história dos livros impressos, mas sim de compreender como essa invenção técnica inscreveu-se num conjunto de transformações no curso da civilização e na maneira de pensar dos homens, desempenhando nela sua parte. Desde então, as pesquisas sobre história do livro, desenvolvidas nos mais diversos países, passou a articular-se com a história econômica e social, abordando não apenas as condições de produção e difusão, como também com a história das práticas culturais, dentre elas a da leitura, focada nos processos de recepção e apropriação do texto. Inscrevendo-nos nessa campo de pesquisa, a presente comunicação tem por objetivo partir da fundação do Grêmio Literário Português do Pará de forma a inscrevê-lo no interior do comércio transatlântico de livros. Para tanto, far-se-á uma breve historia da fundação do gabinete de leitura, inserindo-a em um contexto mais amplo de surgimento desse tipo de instituição para, em seguida, discutir aspectos relativos ao comércio de livros com Portugal. Em um segundo momento, tomaremos como fonte de pesquisa o banco de dados disponível no site "Paris na América: romances franceses no Grêmio Literário Portugues do Pará" para, então, discutir aspectos relativos aos agentes envolvidos na produção e circulação do livro. Pretende-se, assim, indagar: Quem eram esses agentes? De onde provinham? Que práticas editoriais empreendiam? Qual a relação entre essas práticas e a materialidade dos exemplares disponíveis no acervo? E, finalmente, o que autores e obras nos dizem sobre as preferências do público leitor?

"Obras tão dignas de memória": os periódicos do Grêmio Literário Português do Rio de Janeiro

Eduardo da Cruz (UERJ)

O antigo Grêmio Literário Português do Rio de Janeiro, fundado em 1855 por um grupo de jovens portugueses trabalhadores do comércio, além de contribuir para a formação dos imigrantes lusos que trabalhavam como caixeiros, distinguiu-se de outras associações da colônia por ter como um de seus objetivos a publicação de periódicos que difundissem as obras de seus sócios. Pretendemos, nesta comunicação, apresentar um breve histórico dessa agremiação, suas estratégias de crescimento e as dificuldades que enfrentaram, seus principais membros e os órgãos de imprensa que criaram. A partir da leitura da revista A Saudade (1ª série, de agosto de 1856 a fevereiro de 1857; 2ª série, de abril de 1861 a outubro de 1862) e do anuário Álbum do Grêmio Literário Português (1858), documentos do cotidiano valorizados pela História Cultural, buscaremos descortinar alguns tópicos de interesse desses literatos portugueses residentes na capital do Brasil, como as saudades da pátria, a ambientação na nova terra, as leituras que faziam e, sobretudo, a imagem do imigrante português que difundiam em suas folhas.

Palavras-chave: imprensa periódica oitocentista; imigração; relações luso-brasileiras